A gravidez na adolescência por quem a vive na pele e na alma
- Maria Luísa Cappelli
- 10 de out. de 2017
- 5 min de leitura
As histórias que contam mais que históricos
Era uma quinta-feira ensolarada, no ano de 2013, quando o teste de gravidez marcou positivo. Foi assim que Daniela Castello descobriu que estava grávida aos 16 anos. "Lá fora fazia sol, mas eu chovia por dentro". Ela conta que parecia que a vida tinha acabado, mas que com o tempo percebeu que estava apenas começando e que os dias nublados são aqueles longe de sua filha Bianca, de 4 anos.
O caso de Daniela se repete pelo Brasil, o número de crianças nascidas, de mães adolescentes na faixa etária entre 10 e 19 anos, representa 18% dos 3 milhões de nascidos vivos no país em 2015, segundo pesquisa da Saúde Brasil.
A gravidez indesejada na adolescência assusta os pais e também uma sociedade que espera que mulheres engravidem em uma certa idade da vida adulta. Não há como definir causas e consequências dessa realidade e muitos pais levam isso de maneiras distintas.
De menina à mulher
Em entrevista ao InCultura, a Ginecologista, Obstetra e Sexóloga, Dra. Cristina Abreu, falou sobre a formação do corpo da mulher e tabus relacionados a Educação Sexual:
"A menarca (primeira menstruação) marca o momento em que a menina começa a exercer seu ciclo reprodutivo, porém as mulheres com idade muito precoce devem ser desencorajadas a engravidar pois a idade pode ter um papel potencial no desenvolvimento de complicações que colocam em risco a saúde da mulher e do feto".
A Dra. explicou também sobre os possíveis riscos de uma gravidez precoce: "a gestação poderá prejudicar a adolescente se ela ainda estiver em fase de desenvolvimento do seu corpo, além de poder em alguns casos ter o parto transvaginal dificultado por problemas de desenvolvimento da bacia e das partes moles".
Também foi frisado por ela, que os maiores problemas a serem enfrentados são de natureza psicossocial, o que determina, muitas vezes, a não realização do pré-natal e ocultação da gravidez. "Embora alguns problemas como anemia e crescimento fetal restrito, possam ocorrer, as adolescentes que fazem um bom acompanhamento pré-natal costumam ter recém-nascidos sem intercorrências e partos normais".
Educação Sexual: instrução ou incentivo?
"Os pais acreditam que o momento específico para falar de sexo com seus filhos é exatamente quando eles temem que os mesmos iniciem as atividades sexuais"
O medo dos pais em falar de sexo com seus filhos, muitas vezes faz com que os mesmos procurem por contra própria informações que podem não ser a melhor forma de entender sobre o assunto. E educação sexual leva ao desenvolvimento de uma consciência crítica para tomar decisões responsáveis, formando assim adultos com capacidade para vivenciar uma sexualidade plena e feliz.
As manifestações da sexualidade afloram em todas as faixas etárias, em especial na adolescência. Sendo assim, a Educação sexual deve ser iniciada ainda na infância. "As informações sobre sexo devem ser passadas naturalmente, como qualquer outro assunto em que aja a intenção de educar; as perguntas devem sempre ser respondidas, mas tomando o cuidado de explicar apenas o que está sendo perguntado, procurando entender o que realmente a criança e/ou adolescente quer saber e sempre certificar de que sua resposta foi satisfatória", aconselhou Dra. Cristina Abreu.
Responder exatamente o que se pergunta evita que surjam dúvidas seguintes e consequentemente evita "avançar" nas informações. "Ignorar, ocultar ou reprimir não são atitudes adequadas, isto poderá gerar um acúmulo de incertezas que provocarão nos jovens a insegurança e imaturidade para uma prática sexual saudável e responsável".
O medo da Educação sexual como forma de incentivo, de fato existe, mas é um pensamento equivocado, já que muitas vezes os filhos tem os pais ou responsáveis como única fonte de conhecimento e instruções para a preparação de sua vida sexual. "Este é um temor de grande parte dos pais e se deve ao fato deles acreditarem que existe um momento especifico para falar de sexo com seus filhos, e este momento é exatamente quando eles temem que seus filhos iniciem as atividades sexuais. Então este medo de que a orientação sexual gere um “encorajamento” no adolescente, leva este pai ou mãe a terem dúvidas se devem falar ou não no assunto sexo/contracepção com seus filhos".
A Ginecologista e Sexóloga Cristina Abreu, encerra sua entrevista declarando que chegamos a um momento em que não faz mais sentido lidar com a sexualidade de forma velada; se queremos um mundo mais maduro e esclarecido, não se pode dar preferência ao implícito em detrimento da explicitação das questões relativas à sexualidade.
Os pais devem entender que falando ou não de sexo eles educam da mesma forma, seja pelas suas respostas e silêncios, a forma de se comportar, de olhar, escolhas dos programas de televisão: tudo educa.
Os corações e lutas por trás das estatísticas
Os meios de prevenção não ocultam o fato dessa realidade acontecer e muitas meninas e meninos jovens, precisam atribuir responsabilidades que antes não existiam ao assumir seus filhos.
Os apresento agora, a história de três mães que passaram por cima de seus medos e angústias causadas pela pouca idade e deram à luz novas histórias, desafios e aprendizados:
Aline Hardt
"Eu tinha medo de não dar conta daquele ser tão frágil, medo de morrer..."
Grávida aos 15 anos, Aline conta que a descoberta foi horrível. Sua mãe aceitou bem, porém teve a reprovação de seu pai, que ficou um tempo sem a olhar nos olhos. Ela sentia que as pessoas tinham pena dela por estar grávida tão nova.

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Ela relatou ter mudado por completo, assumiu responsabilidades muito grandes, perdeu oportunidades e amigos, porém encontrou novos caminhos que a fizeram feliz. "Fui obrigada a crescer pois tinha um serzinho que dependia de mim, eu assumi sem ter ideia do que viria pela frente, e aprendi que criar um filho sem pai sem estruturas tem consequências, mas o amor faz com que nada falte".
Neusa Oliveira
"Aceitei bem o fato de estar grávida na adolescência e sabia que a partir dali, as coisas seriam diferentes"
Descobriu a gravidez com 16 anos e em primeira instância, não contou a sua família, porque tinha acabado de perder sua mãe. Ela afirma a vital importância da ajuda de seu marido – na época namorado. Fabiano foi seu maior apoio, esteve ao seu lado em todos os momentos e isso a confortou e a fez não temer os desafios da gravidez precoce. "Contamos para a família do Fabiano, que me acolheu em sua casa e sempre me tratou muito bem".

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Neusa acredita que a maior dificuldade de uma mãe adolescente é dar uma "pausa" em sua vida e o preconceito da sociedade, que ela conta ter vindo de seus próprios irmãos. Entretanto, isso não a abateu: "Não era só mais eu, eu tinha alguém que dependia de mim, e isso me deu forças para não pensar no medo, e sim nas possibilidades".
Cibely Lopes
"Eu temia não dar conta... Não fazer as coisas direito"
Aos 17 anos, Cibely descobriu que estava grávida. Ficou nervosa em contar a sua família, que reagiu bem e ficou feliz com a notícia: " Eles me mimavam muito e ficaram super ansiosos! Felipe, pai do meu filho, sempre me deu suporte também".

Foto: Reprodução/Arquivo pessoal
Ela ressalta que mães adolescentes passam por dificuldades diferentes de mães adultas. "Ambas passam por dificuldades, eu acredito. Mas as mães adolescentes passam por mais, com certeza. Como julgamento; não ter terminado os estudos; às vezes não trabalham; por não ser uma mulher 'formada' ainda; algumas não tem suporte da família ou do próprio pai da criança".
Cibely também relatou seus medos após o nascimento de Vitor: "Eu tinha medo de tudo, nem dormia direito pra ver se ele estava bem". Ela assumiu responsabilidades, passou a viver não só por ela, e lutar também pelo futuro de seu filho.

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