A reverberação do #DeixaElaTrabalhar
- Vinícius Barboza
- 4 de abr. de 2018
- 3 min de leitura
O movimento que luta contra o machismo no jornalismo esportivo e os discursos que o cercaram
Lançada na última semana, a campanha “Deixa Ela Trabalhar” reuniu mulheres profissionais da mídia e da esfera esportiva em prol da luta contra o assédio e o machismo existentes no jornalismo e no futebol. O movimento foi idealizado por Bruna Dealtry, repórter do canal Esporte Interativo, após ter sido assediada durante uma cobertura ao vivo. A jornalista desabafou em seu Instagram: “o cidadão que quis aparecer é quem deve se envergonhar do que fez. Sou repórter de futebol, sou mulher e mereço ser respeitada”.
Por meio da hashtag #DeixaElaTrabalhar, personalidades do jornalismo esportivo brasileiro denunciaram casos de assédio que sofreram. Um vídeo gravado por nomes como Cris Dias, Fernanda Gentil e Carol Barcellos fora divulgado no dia do lançamento do protesto, que cada vez ganha mais corpo. Atualmente, mais de 30 mil pessoas seguem nas redes sociais a campanha, que ganhou destaque também em jornais internacionais.

Logo da campanha. Foto: Reprodução/Instagram “Deixa Ela Trabalhar”
O machismo que atinge as jornalistas esportivas é reflexo da consciência coletiva da sociedade. Porém, a discriminação se potencializa no mundo do futebol, tido por muitos como um “universo masculino”.
Assim como no dia a dia, no esporte o machismo se dá de formas variadas, o que reforça o caráter estrutural do preconceito na sociedade. Exemplos são os beijos “amigáveis” dados em repórteres, sem consentimento, que estão ali para desempenhar o seu trabalho; cantadas ou ofensas a árbitras, assistentes, gandulas ou jogadoras por parte de torcedores; ou então a concepção de que elas não podem jogar bola ou sequer torcer, mesmo que, em média, a cada 10 mulheres brasileiras, 7 possuem um time do coração.
Dentro das redações jornalísticas, a manifestação do machismo também marca forte presença, desde casos de chefes que preferem contratar homens para cobrir editorias esportivas, à própria confiança dada às profissionais (menor, se comparada ao crédito depositado nos homens).
Em uma publicação no Instagram, Ana Thaís Matos, repórter das rádios Globo e CBN, relata episódios de discriminação sofridos por ela no início da carreira jornalística. “Um dia meu nome estava na escala para eu fazer a crônica do jogo para o site. Cheguei na redação, um editor olhou para mim e falou ‘Vai separar as fotos do jogo, escolher frases, etc.’, algo inferior ao que todos os outros estagiários faziam. Questionei o motivo da mudança e ele ‘Aqui você não questiona, você faz. Os meninos vão cuidar da crônica.’” O texto completo pode ser acessado aqui.

Mulheres envolvidas com o futebol e o jornalismo esportivo, reunidas no Estádio Nilton Santos, no Rio de Janeiro/RJ, para a divulgação do movimento. Foto: Reprodução/Instagram “Deixa Ela Trabalhar”
O vídeo de lançamento da campanha foi compartilhado no YouTube por usuários favoráveis e contrários. Muitos dos que se posicionaram contra usaram argumentos falaciosos para invalidar o protesto e a luta das jornalistas e profissionais do esporte.
Fique atento às argumentações falaciosas
Uma das principais formas de tentar invalidar os movimentos que buscam igualdade de gênero, é por meio de generalizações indevidas. Elas acontecem quando aplica-se um caso isolado que mostra que o lado adversário do debate também pode ser vítima daquela violência. Porém, esse tipo de argumentação relata exceções, e não justifica a diminuição do combate a um preconceito estrutural.
A “falácia do espantalho” é usada para invalidar manifestações por meio de ressignificações. No caso do movimento “Deixa Ela Trabalhar”, essa forma de argumentação contrária surgiu com associações da luta em prol de direitos a um movimento social ou partidário. A fusão desses dois elementos tende a provocar o afastamento do público desse protesto.
A terceira falácia diz respeito a pensamentos deterministas, esta é a “falácia da genética”. Aceita-se uma regra da sociedade, normalmente conservadora, e a aplica no debate como verdade absoluta. Esse tipo de argumentação impede a agregação de novas ideias e posicionamentos na discussão.

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