"Menina má"
- Caroline Almeida
- 9 de ago. de 2018
- 3 min de leitura
Trajetória de uma das maiores vozes brasileiras LGBT
Uma das grandes representantes da música brasileira e o do rock nacional, Cássia Eller foi cantora, compositora e musicistas. A artista se consagrou pela voz grave e sua ousadia nos palcos, e como mulher lésbica, tornou-se um símbolo para a comunidade LGBTQ+.
A carioca precisou passar por uma série de mudanças de um estado para outro durante a infância e pré-adolescência, pois seu pai servia ao exército como Sargento. Mais tarde, retornou ao Rio, período que começou a interessar-se por música. Aos quatorze anos, ganhou seu primeiro violão, em que tocava uma das suas grandes referências: The Beatles.
Leia também:
Mudou para Brasília com família aos 18 anos, onde iniciou carreira musical. Ao entrar para um coral, apresentou-se em duas óperas e também em um grupo de forró. Durante um ano, fez parte do primeiro trio elétrico de Brasília, "Massa Real", tocava e cantava em bares. Mas foi em 1981 que deslanchou no meio artístico, quando participou de um espetáculo do cantor e compositor Oswaldo Montenegro. Em busca de liberdade pessoal, a cantora foi morar em Belo Horizonte. O início da vida independente não foi fácil, para sustentar-se, passou a trabalhar como assistente de pedreiro e vivia em um quarto alugado.

A malandragem de Cássia Eller. Foto: Reprodução/Catraca Livre
O auge de sua carreira iniciou em 1989, quando gravou uma fita demo da música "Por enquanto" de Renato Russo com ajuda de seu tio, que levou o trabalho da sobrinha para a gravadora PolyGram. No ano seguinte, fez sua primeira participação em disco no LP de Wagner Tiso. Na mesma época, desenvolveu uma de suas mais famosas características como artista, a habilidade de interpretar várias personalidades, como Cazuza, Chico Buarque e Rita Lee, chamando a atenção de emissoras de TV, que a convidada para participações especiais.
Ao longo de sua carreira gravou dez álbuns próprios, fez parcerias musicais com Chico Buarque e Nando Reis, amigo pessoal e que compôs um de seus maiores sucessos para a artista, “All Star”. Foi eleita a 18° maior voz do rock brasileiro dos anos 90 pela Rolling Stone. Em 2014, o documentário “Cássia”, dirigido por Paulo Henrique Fontenelle, teve estreia nos cinemas em homenagem à cantora, o longa reconstrói sua trajetória e surgimento na música, além de trazer cenas inéditas de sua vida pessoal.
Influência e vitória LGBT
Cássia Eller manteve um relacionamento de quatorze anos com Maria Eugênia, com quem criou o seu filho biológico, Francisco Eller. À época, a união de pessoas do mesmo gênero não era legalizada, e a cantora previa que haveria complicações judiciais pela guarda do filho caso viesse a óbito, e por isso declarou e documentou que, nessa circunstância, ele deveria ficar sob responsabilidade de sua companheira. Logo após sua morte, em 2001, apesar da declaração, os avós maternos entraram na justiça para criar o neto.

A família LGBT que conquistou seu direito. Foto: Reprodução/Rolling Stone
A princípio, Francisco deveria por lei ficar com os avós, mas a batalha judicial e o depoimento da criança, que disse preferir viver com Eugênia, fez com que, pela primeira vez no Brasil, a guarda tutelar legal de uma criança fosse cedida para uma das partes de um núcleo familiar LGBT. O caso abriu espaço para debates na mídia sobre “a família tradicional brasileira”, consagrando um marco e contribuindo na luta pelos direitos LGBTs.
"Ele arrasou. Falou do desejo dele de ficar comigo, se referiu a mim como mãe o tempo todo, foi maravilhoso", contou Eugênia sobre o depoimento de Francisco
Cássia foi uma grande voz da comunidade LGBTQ+ que conquistou espaço no cenário musical. A artista tinha presença de palco despojada e irreverente, chamava atenção ao mostrar os seios e usar pronomes masculinos em suas apresentações, em busca da desconstrução de gênero, provocando reflexões. Ela foi uma das primeiras personalidades no país a falar abertamente sobre o relacionamento entre pessoas do mesmo sexo, tornando-se uma referência para as mulheres lésbicas e bissexuais.

Comentários